quinta-feira, 11 de junho de 2026

George Harrison, All Things Must Pass

 

 

Vou usar este espaço para falar de alguns dos meus livros e discos preferidos. Começo com um grande disco de George Harrison, All Things Must Pass. 

Quando os Beatles se separaram, em 1970, Harrison era o membro deles que tinha mais material inédito pronto, pois havia sido o terceiro compositor do grupo em importância, colocando no máximo duas ou três canções por disco. Lançado ainda em 1970, All Things Must Pass ocupava 3 LPs, e depois foi compactado em 2 CDs. O primeiro CD,  com 10 músicas originais (nas versões mais recentes algumas vezes são incluídas faixas bônus que não estavam presente no original), é quase perfeito. Tem as duas músicas que ficaram mais conhecidas, My Sweet Lord e What is Life, tem uma bela parceria com Bob Dylan, I’d Have You Anytime, que abre o disco, outra músicade Dylan, If Not For You, com um arranjo espetacular, Wah-Wah, em homenagem ao efeito de guitarra, a melodiosa e talvez um tanto longa Isn’t it a Pity. Mas gostaria de destacar outras três músicas que são menos conhecidas e citadas: Behind That Locked Door, que, mesmo com a grande concorrência, ainda é, para mim, a música mais bonita do disco; Run of the Mill, com sua estrutura rítmica diferente, e I Live for You, outra senhora balada que seria destaque em muitos outros discos. 

O segundo CD também tem ótimas músicas, com destaque para a música que deu nome ao disco, que é um resumo da visão otimista que perpassa toda a obra: All Things Must Pass Away, não há mal que sempre dure. A alegre Apple Scruffs, Awaiting You All e Beware of Darkness também merecem destaque. A segunda metade do segundo CD é composta de músicas instrumentais, vários “jams” em que Harrison parece, antes de tudo, se divertir e que mostram que ele foi um excelente guitarrista, não tão voltado para solos tocados com extrema rapidez mas com um grande toque melódico, como várias das músicas desse disco evidenciam.

Com o lançamento, Harrison comprovou que era um compositor no mesmo nível de qualidade de Lennon e McCartney, embora suas músicas tenham algumas características diferentes. Em primeiro lugar, um certo tom religioso, não exatamente cristão, mais sincrético, que fica evidente, por exemplo, no título e em toda a letra de My Sweet Lord e no refrão de Awaiting You All. Não é exatamente cristão porque esse “lord” de Harrison aparece misturado com Hare Krishna e outras religiões indianas, que já atraíam a Harrison desde a época dos Beatles. A segunda diferença, ligada à primeira, é que as letras de Harrison são mais voltadas para a meditação, para um olhar interior, do que as de Lennon, em geral mais políticas e críticas ou satíricas, e as de McCartney, em geral românticas. Mas este disco é a prova de que Harrison, sozinho ou com a ajuda de alguns poucos amigos da qualidade de Bob Dylan e Eric Clapton, podia produzir um disco de qualidade comparável aos melhores dos Beatles. 

 

George Harrison, All Things Must Pass

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